Projetos

Aqui você irá encontrar alguns relatos de projetos realizados, podendo ter uma idéia de qual é o trabalho que existe por trás de cada produção que já participei. Também é possível encomendar projetos, para isso é necessário ir à página de contatos.

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Meu Primeiro Concerto

O primeiro concerto que regi foi com a Sinfonia Cultura e a grande cantora Inezita Barroso. Na verdade foi a segunda parte do concerto, mas de qualquer forma foi minha estreia.

O ano era 1998 e eu estava procurando caminhos que me levassem à regência. Conversando com o pessoal da produção da Sinfonia Cultura (orquestra da Fundação Padre Anchieta, extinta em 2005), fiquei sabendo de um projeto para adaptações de arranjos originais da orquestra da rádio Record dos anos 50 para nosso grupo. Todos para serem apresentados com a cantora Inezita Barroso. Imediatamente me ofereci para fazer o trabalho e adicionei o seguinte comentário: Se precisar eu rejo também.

Depois de um outro profissional ter recusado o trabalho, acabei sendo encarregado de fazer as adaptações.

Eu tinha falado que fazia, mas não tinha idéia do que iria encontrar. Então fui apresentado ao material. Depois fiquei sabendo que a Inezita Barroso tinha conseguido ficar com os originais de quase todos os arranjos que foram feitos para ela na Record, salvando-os do destino - dado a muitos outros arranjos - de serem vendidos como papel velho.

Os arranjos eram todos de Hervè Cordovil, um grande músico, maestro, arranjador e compositor, que trabalhou muitos anos na rádio Record, ao lado de Cyro Pereira. As peças todas tinham uma formação típica da época, ou seja, os violinos eram divididos em A, B, C, D e E, havia partes para saxofones, baixo elétrico, violão/guitarra, piano, bateria. O trabalho consistia basicamente em refazer a orquestração, usando os intrumentos da Sinfonia Cultura, que possui uma formação tradicional.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a riqueza musical daqueles arranjos orquestrais. Ainda que as canções fossem bastante simples, as orquestrações eram muito trabalhadas, sempre com contracantos e acompanhamentos dinâmicos. Se alguém ouvisse apenas a parte da orquestra, sem a voz cantando a melodia, não saberia que música era, pois não havia nenhuma citação do solo no acompanhamento.

O meu respeito pelos arranjadores da era de ouro da Rádio, cujo o maior representante que eu conheço é o Cyro Pereira, que já era grande, se transformou em verdadeira admiração. E Hervè Cordovil ganhou um espaço especial, especialmente pela sua genialidade em criar contracantos e contra-melodias.

Fiz as adaptações e aquela minha breve insinuação sobre eu reger acabou funcionando e dirigi Os concertos. Foram um total de quatro (sempre na segunda parte). Todos no Sesc Belenzinho.

Me lembro também da sensação do meu primeiro encontro com a Inezita, isto já no nosso ensaio. Na hora em que ela abriu a boca e começou a cantar, me senti tão pequenininho diante daquele monumento da música brasileira. A Inezita quando entra num palco, toma posse. Ela tem uma energia, um carisma e uma força que nunca vi em nenhum outro artista com quem já trabalhei. Nossa empatia foi grande e acabou gerando um concerto no começo de 1999 no Sesc Vila Mariana, mas desta vez eramos só orquestra e Inezita.

Ao todo foram 16 adaptações, que acabaram rendendo algumas versões e mais alguns encontros dos quais nunca esquecerei, inclusive algumas aparições no program Viola Minha Viola, da TV Cultura. Acho que foi um começo de carreira muito rico, sobretudo pelo encontro com estes dois ícones: Hervè Cordovil e Inezita Barroso.



Concerto Ilustrado - 2003

No final do primeiro semestre de 2003 a direção da Sinfonia Cultura me pediu que pensasse em uma proposta para um concerto no dia das crianças (12 de outubro). Fiquei pensando sobre o que fazer e decidi que iria fugir da dupla Pedro e o Lobo de Prokofiev e do Carnaval dos Animais de Saint-Säens, peças sensacionais mas repetidas à exaustão nesta data. Comecei a conversar com as pessoas sobre idéias diferentes e acabei conhecendo um desenhista, que também era músico amador, que me sugeriu fazer um concerto onde ele faria algumas ilustrações durante a apresentação. Achei uma ótima sugestão.

Ao dirigir os concertos didáticos em 2002, ficou claro para mim a capacidade da música orquestral de provocar emoções e sugerir imagens e situações. Comecei então a procurar peças que tivessem estas características. Algumas apareceram logo, como a Dança do Sabre de Khachaturian e o Vôo do Besouro de Rimsky-Korsakov. Pensei na Dança das Horas de Ponchielli, na Alvorada de Carlos Gomes e de peças do filme Fantasia, como Aprendiz de Feiticeiro e a Suíte Quebra Nozes de Tchaikovsky. E a lista foi crescendo...

Já tinha uma relação de músicas suficientes para três concertos quando me dei conta de um grande problema: como 'amarrar' todas estas peças de forma que fizessem sentido para o público-alvo, ou seja, as crianças?

Lembrei-me de quando meu filho era pequeno e de como ele gostava de ouvir estórias ao mesmo tempo em que escutava músicas. A solução estava dada: era preciso criar uma estória que seria ilustrada pelo desenhista durante a execução das músicas.

O ilustrador morava no Rio de Janeiro e eu em São Paulo, assim nossos contatos não eram tão freqüentes como eu gostaria, ficando sob minha responsabilidade a criação da estória e seleção das músicas. Queimei as pestanas durante uma semana, mas acabei criando a estória, que era muito simples, e também escolhi as peças. Mas ainda faltava uma coisa: a Sinfonia Cultura era uma orquestra pequena, com cerca de 55 instrumentistas e era preciso fazer arranjos e adaptações para esta formação. Resultado: passei três meses produzindo-os.

Aqui vai um resumo da estória e as músicas utilizadas.

Dois amigos moram na cidade, que é mais ou menos assim (Americano em Paris* – G. Gershwin – versão com apenas 5 minutos). Eles decidem ir passear no campo, onde descobrem uma árvore e sobem nela. Mas, de repente, uma surpresa! Um enxame de abelhas corre atrás deles (Vôo do Besouro* – N. Rimsky-Korsakov). Vêem um boneco no chão e fantasiam sobre a morte dos bonecos (Marcha para um Funeral de uma Marionete* – C. Gounod). Eles pegam dois pedaços de pau no chão e simulam uma luta de espadas (Dança do Sabre* – A. Khachaturian). Usam os pedaços de pau como cavalos e brincam de faroeste (Tema do filme Sete Homens e um Destino* – Elmer Bernstein). Pausa para comer um lanche e observar a paisagem tão diferente da cidade (Toada – Cyro Pereira). A noite chega e não há luzes como na cidade, de repente descobrem que o céu está cheio de estrelas e pensam em viagens estelares (Tema do filme Jornada nas Estrelas* – Jerry Goldsmith). Vêem uma estrela cadente e pensam num mundo mágico (Temas do filme Harry Potter* – John Williams). Medo! percebem que estão perdidos... (No Salão do Rei da Montanha – E. Grieg). Acham uma casa onde adormecem e têm muitos sonhos (Dança das Horas – Ponchielli). Acordam a tempo de ver o amanhecer e voltar para casa (Alvorada* – Carlos Gomes).

Todas as peças com asteriscos (*) foram produzidas especialmente para este concerto. Deu um trabalhão, mas valeu a pena. As crianças adoraram, mas confesso que acabei com uma sensação de que os desenhos do ilustrador foram as grandes estrelas do evento...



Cyro Pereira

Faz um mês e meio que fiquei meio órfão. Os mais atentos dirão que não existe meio órfão. Verdade. Mas me refiro a um estado de espírito. Em 9 de junho de 2011 faleceu Cyro Pereira, o maestro fundador da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo e também responsável por um dos padrões estéticos da orquestra. Entre arranjos e composições, escreveu por volta de duzentas peças só para a 'Jazz' (como a orquestra é carinhosamente chamada). Talvez seu momento de maior destaque tenha sido em meados dos anos 60; era o grande maestro dos Festivais da Canção da Record.

Ele nasceu em Rio Grande/RS, último porto ao sul do Brasil. Veio para São Paulo em 1950. Logo começou a trabalhar na rádio Record. Lá conheceu seu grande mentor: Gabriel Migliori, que entre outras coisas foi o compositor da trilha do filme O Cangaceiro. Naquele tempo (década de 50), a rádio era uma fábrica de produções sonoras. Tinha três orquestras e uma série de maestros/arranjadores ou orquestradores, como preferia o Cyro. Os programas eram sempre 'ao vivo'. A rotina era escrever pela manhã, ensaiar à tarde e tocar à noite. Foi uma escola valiosa. Sobretudo para desenvolver duas características que o diferenciaram dos demais. A primeira era a capacidade de criar peças que possuíam um equilíbrio sonoro quase perfeito, ou seja, suas orquestrações não apresentavam nenhum problema na execução ao vivo, pois era possível ouvir tudo com clareza (a contrapartida são arranjos que dependem de uma mesa de som para que determinadas frases sejam ouvidas, como no caso das gravações). A segunda era uma preocupação quase obsessiva em manter a atenção do ouvinte. Isto era conseguido por meio de uma constante alteração da textura orquestral.

Conheci o Cyro primeiramente por intermédio de sua obra. Em 1997 comecei a trabalhar com ele. Na convivência cotidiana, Cyro era uma pessoa normal. Tinha alguns medos, como do dentista, o que acabou por deixá-lo quase sem dentes no final da vida.

Por vezes, também era o que se chama de rabugento. Sua primeira resposta para tudo era NÃO.

- Cyro, tem um concurso de composição da prefeitura. Você vai concorrer?

- Não!

- Cyro, apareceu um projeto para criar uma orquestra. Você topa participar?

- Não!

- Cyro,...

- Não!

Por conta disto, perdeu algumas oportunidades, inclusive a de ir trabalhar nos Estados Unidos, no começo dos anos 60. Mas, na maioria das vezes, com um certo jeitinho, era possível convencê-lo. Assim, participou de um concurso da prefeitura de São Paulo em 1960 para a criação de uma suíte (série de peças, neste caso, cinco) com temas brasileiros. Recebeu o prêmio de Menção Honrosa. E foi um dos fundadores da Orquestra Jazz Sinfônica em 1990, que se tornou a 'menina dos seus olhos'.

À frente da orquestra, nos ensaios também era, por vezes, irascível:

- Mantenham o ritmo, isto aqui não é ópera!

- Errar é humano, mas vai ser humano assim lá adiante!

- Estudar Beethoven todo mundo estuda, mas as coisas que eu escrevi não, né?

O primeiro bordão referia-se à sua origem na música popular, que possui um ritmo sempre preciso, em contrapartida com uma pulsação mais elástica da orquestra; os outros dois relacionavam-se à performance dos músicos quando estavam executando as peças dele.

Mas isto tudo era só fachada. No convívio pessoal ele era doce e muito amoroso. O mais comum era acabar um concerto e ficar na saída do palco cumprimentando todos os músicos, sempre com um sincero e emocionado 'Muito Obrigado!'.

Era igualmente muito bem humorado. Adorava fazer trocadilhos, especialmente com títulos de músicas. Suas peças têm nomes como: As Rosas do Noel (uma fantasia sobre temas de Noel Rosa), O Fino do Choro (uma fantasia com diversos temas de choros), Cuidado com o Degrau (uma peça bastante difícil tecnicamente), Apanhei-te Nazareth (uma fantasia com temas de Ernesto Nazareth), Cassiando Encrenca (que ele dedicou a uma flautista chamada Cássia), e tantas outras. Vez ou outra, convidava alguém para ir conversar com o João Andarilho, ali no bar da esquina (onde possuía sempre uma garrafa do whisky Johnnie Walker).

Quando era jovem, adorava escutar as orquestrações de Radamés Gnattali para a Rádio Nacional. Decidiu que queria seguir o mesmo caminho, o de vestir a música popular com uma roupa sinfônica, ser um orquestrador. Como ele disse, 'aos trancos e barrancos, consegui.'

George Gershwin e Leonard Bernstein também seguiram por este caminho. Ambos sofreram enormes discriminações, pois os conservadores não admitiam (e não admitem) o cruzamento das artes. Música erudita é música erudita. Música popular é música popular, dizem eles. Um crítico de Nova York se gabava de nunca ter escrito 'uma única linha sobre Gershwin.'

O resultado disso é o mesmo em qualquer lugar: distanciamento da crítica e um sucesso de público. Isto acontece porque a música que Cyro escreveu é forte, sensível, profunda. Sua inquietação resulta em obras nas quais a cor da orquestra está em constante mudança, mas sempre de uma forma pulsante, criativa, instigante. Cyro era daqueles raros músicos que não escreviam uma única nota 'de graça'. Todas tinham sua importância. Todas tinham seu valor. E forma sólida.

Disse que estou meio órfão. Na verdade, todos estamos, pois perdemos o Gershwin brasileiro.

Julho/2011